Quando falamos de fertilidade, a atenção costuma dirigir-se primeiro às mulheres. No entanto, a fertilidade masculina é responsável, direta ou indiretamente, por até 50% dos casos de dificuldade em conceber. Ainda assim, muitos homens não consideram cuidar da sua saúde reprodutiva… até que surge um problema.
Este artigo não pretende alarmar, mas sim convidar-te a refletir de forma empática: o teu corpo, a tua saúde e a tua possibilidade de seres pai, se assim o desejares, merecem cuidado. E muitas vezes, cuidar da fertilidade começa com algo tão simples (e complexo ao mesmo tempo) como o autocuidado.
O que entendemos por fertilidade masculina?
A fertilidade masculina refere-se à capacidade de produzir espermatozoides saudáveis, móveis, em quantidade suficiente e com ADN íntegro, capazes de fecundar um óvulo e dar origem a uma gravidez viável.
Embora possa parecer um processo automático, a produção de esperma depende de muitos fatores. Alguns são genéticos ou médicos e estão fora do nosso controlo. Mas muitos outros estão diretamente relacionados com os nossos hábitos diários.
Por que falar de autocuidado masculino?
Porque o corpo masculino também comunica. Muitas vezes ignoramo-lo até que surgem sinais de alerta: fadiga, insónias, perda de libido, alterações hormonais ou dificuldade em conceber.
O autocuidado não é uma moda, nem um ato egoísta. É saúde preventiva. É responsabilidade emocional. E, no caso da fertilidade, é uma ferramenta poderosa para aumentar as tuas hipóteses se estás a pensar em constituir família.
Principais fatores que afetam a fertilidade masculina (e o que podes fazer)
Alimentação: come para cuidar da tua fertilidade
Uma dieta rica em frutas, legumes, leguminosas, frutos secos, azeite, peixe azul e cereais integrais fornece antioxidantes, zinco, selénio e vitaminas E e C, que ajudam a proteger os espermatozoides do dano oxidativo.
Estudos demonstraram que uma alimentação de tipo mediterrânico melhora a qualidade do sémen (Salas-Huetos et al., 2017). Evita o excesso de gorduras saturadas, açúcares refinados e produtos ultraprocessados: afetam não só a tua saúde geral, mas também a tua fertilidade.
Peso corporal: o equilíbrio importa
Tanto o excesso de peso como a magreza extrema podem alterar os níveis hormonais e reduzir a qualidade do esperma. Manter um peso saudável contribui para um ambiente hormonal mais estável para a espermatogénese.
Exercício físico: mexer-te é cuidares de ti
Fazer exercício regularmente melhora a circulação, reduz o stress, regula as hormonas e favorece a produção de testosterona. Mas, como tudo, em excesso pode ter o efeito contrário.
O sobre-treino ou o uso de esteroides anabolizantes (comum em ambientes de musculação) pode reduzir a produção natural de esperma (Vaamonde et al., 2009).
Descanso e saúde mental: também fazem parte da fertilidade
Dormir mal ou viver sob stress crónico afeta diretamente os teus níveis de testosterona. O stress também aumenta o cortisol, uma hormona que pode inibir outras funções reprodutivas.
Praticar técnicas de relaxamento, meditar, desligar dos ecrãs à noite ou procurar apoio psicológico, se precisares, também faz parte do autocuidado fértil.
Evita o tabaco, o álcool e as drogas
- Tabaco: reduz o número e a mobilidade dos espermatozoides e aumenta os danos no ADN.
- Álcool: em excesso, reduz a produção de testosterona e altera a espermatogénese.
- Drogas recreativas: como a marijuana ou a cocaína, afetam a qualidade do sémen e a função sexual.
A boa notícia é que, se deixares estes hábitos, o teu corpo pode regenerar-se. A produção de espermatozoides renova-se aproximadamente a cada 72 dias.
Calor testicular: um detalhe que importa
Os testículos precisam de uma temperatura ligeiramente inferior à do corpo para funcionarem bem. O uso frequente de saunas, banhos quentes, roupa interior muito apertada ou manter o portátil sobre o colo durante longos períodos pode afetar a produção de esperma. Não é preciso entrar em paranoia, mas sim estar atento.
Contaminantes ambientais e substâncias tóxicas
Muitos homens trabalham ou vivem expostos a produtos químicos, metais pesados ou desreguladores endócrinos presentes em plásticos, pesticidas ou cosméticos.
Embora nem sempre seja possível evitá-los, podemos reduzir a exposição: escolhe produtos livres de BPA, usa proteção se trabalhas com substâncias químicas e ventila bem a tua casa e local de trabalho.
A idade influencia a fertilidade masculina?
Sim, embora muitas vezes se pense o contrário. À medida que os homens envelhecem, a qualidade do esperma diminui. A partir dos 40 anos, aumentam os níveis de fragmentação do ADN espermático, o que pode influenciar a fecundação, o desenvolvimento embrionário e a saúde do futuro bebé (Johnson et al., 2015).
Ser pai aos 40 ou 50 anos é possível, mas é aconselhável fazê-lo com acompanhamento médico e hábitos de vida saudáveis.
Quando consultar?
Se estás há mais de 12 meses a tentar conceber (ou 6, se a tua parceira tem mais de 35 anos), o ideal é que ambos os membros do casal realizem exames de fertilidade. No caso do homem, o primeiro passo é um espermograma, que analisa o número, a forma e o movimento dos espermatozoides.
Também pode ser solicitado um teste de fragmentação do ADN espermático ou uma análise hormonal se houver suspeita de alterações na produção.
Fertilidade não é sinónimo de virilidade
Um dos maiores mitos é pensar que ter problemas de fertilidade é ser “menos homem”. Nada mais longe da verdade. A fertilidade é uma função biológica, não uma medida de masculinidade nem de desejo sexual.
Falar de fertilidade masculina é falar de saúde, de futuro, de relações. E pedir ajuda médica ou psicológica, longe de ser fraqueza, é um ato de coragem.
Em resumo: cuida do teu corpo, cuida da tua fertilidade
A fertilidade masculina não é um mistério indecifrável. Em muitos casos, melhorá-la depende de decisões do dia a dia: o que comes, quanto dormes, como geres o stress, se fazes exercício ou fumas.
Não precisas de fazer tudo na perfeição. O primeiro passo é estar informado. O segundo, fazer pequenas mudanças sustentáveis. E o terceiro, consultar um especialista se sentires que algo não está bem.
A fertilidade não é algo que “se tem ou não”. Também se cultiva. Também se cuida.


